por Gino Paulucci Jr, Presidente do Conselho de Administração da ABIMAQ/SINDIMAQ
A internacionalização da indústria brasileira de máquinas e equipamentos passa por um ponto central que ainda precisa ser enfrentado. O Brasil não é plenamente compreendido no cenário industrial global. Existe, principalmente fora do país, uma percepção equivocada sobre o nosso nível tecnológico. Em muitos casos, ainda se imagina que estamos distantes das principais referências industriais, quando a realidade é outra. Não são raras situações em que perguntas feitas por interlocutores estrangeiros indicam um desconhecimento profundo sobre o que o país já desenvolve em termos industriais e tecnológicos.
A participação do Brasil em feiras internacionais tem exatamente essa função. Mostrar, na prática, o que a indústria brasileira já é capaz de fazer. Em um momento em que o país ganha visibilidade como parceiro em eventos relevantes, como aconteceu recentemente na Hannover Messe, na Alemanha, a presença se torna ainda mais estratégica. É uma oportunidade de demonstrar que temos tecnologia, engenharia, pessoas qualificadas e capacidade produtiva alinhadas com o que há de mais avançado.
Esse avanço não aconteceu agora. Desde 2016, o setor vem evoluindo dentro do conceito de Indústria 4.0. Não se trata de algo distante ou inacessível. O objetivo sempre foi entender onde estamos e quais passos são necessários para aumentar produtividade, melhorar a eficiência e reduzir custos, inclusive com uso mais racional de energia e recursos. Esse processo continua em evolução e já faz parte da realidade de muitas empresas.
Ao mesmo tempo, existe um contraste importante. Empresas que já atuam no Brasil há décadas conhecem essa capacidade. Há mais de mil empresas alemãs instaladas no país, muitas delas com operações completas e integradas às suas cadeias globais. Essas empresas sabem o nível tecnológico que existe aqui. Por outro lado, quem não tem essa vivência ainda carrega uma visão desatualizada. É nesse ponto que o trabalho de exposição internacional faz diferença.
Um dos aspectos que mais chamam atenção nesse processo é a engenharia brasileira. Existe hoje uma presença significativa de desenvolvimento feito no Brasil em soluções utilizadas fora do país. Em muitos casos, produtos considerados estrangeiros têm parte relevante da sua engenharia desenvolvida por equipes brasileiras. Ao ter capacidade de projetar, o caminho para produzir com competitividade se torna mais acessível e essa é uma base sólida que o Brasil já possui.
Essa capacidade também abre espaço para ampliar a integração com cadeias globais. Há potencial para aumentar o intercâmbio tecnológico e produtivo, inclusive com mercados como o europeu. Medidas que facilitem esse fluxo podem ampliar oportunidades tanto para o Brasil quanto para parceiros internacionais. Hoje, por exemplo, ainda existem entraves que encarecem essa integração, como a incidência de tributação sobre determinados fluxos entre países, o que limita o avanço de parcerias que poderiam ser mais intensas.
Internamente, o desafio passa por ampliar o acesso e o entendimento sobre tecnologia. Muitas empresas, especialmente de menor porte, ainda veem a indústria 4.0 como algo distante. Na prática, nem sempre o primeiro passo é investir em novas máquinas. Em muitos casos, entender melhor os processos produtivos e organizar a operação já gera ganhos relevantes. Há situações em que investir em melhoria de processo traz mais resultado do que adquirir um novo equipamento sem que a operação esteja preparada para utilizá-lo plenamente.
Esse movimento exige uma mudança de postura e uma quebra de paradigma por parte do empresário. Afinal, competitividade não depende apenas de fatores externos, as empresas precisam investir em sua própria modernização. Existem instrumentos de apoio, linhas voltadas à inovação e ao desenvolvimento tecnológico, mas é necessário conhecê-los e utilizá-los com agilidade. O ambiente pode não ser simples, mas há caminhos disponíveis.
No cenário internacional, também é importante entender onde está a principal pressão competitiva. A indústria brasileira não enfrenta o mesmo tipo de disputa que a Europa, que atua em segmentos muitas vezes mais sofisticados. O desafio mais direto está em países com estruturas de custo mais agressivas, o que exige eficiência e capacidade de adaptação por parte das empresas brasileiras.
Mesmo assim, o Brasil já ocupa um espaço relevante no mercado global. O setor de máquinas e equipamentos tem presença internacional consistente, com exportações distribuídas em diferentes regiões, incluindo Estados Unidos, América Latina e África. O potencial de expansão existe, mas depende de continuidade nos esforços e de maior aproveitamento das oportunidades.
Para avançar, é necessário também olhar para dentro. O Brasil tem tecnologia, tem engenharia e tem capacidade industrial, o que ainda precisa evoluir é a forma como isso é percebido e utilizado. É importante que o mercado internacional reconheça esse nível, mas é igualmente importante que o próprio empresário brasileiro valorize o que já tem disponível. Quem avançar nesse processo tende a se consolidar, mas aqueles que ficarem parados, arriscam ficar para trás.

